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A trilogia dos comuns.


Por Rodrigo Mercadante.


“Existem três elementos muito importantes para compreender os bens comuns. O primeiro deles é a partilha dos bens da terra e dos bens que produzimos, garantindo acesso à grande riqueza da natureza e, consequentemente, à riqueza social que é produto de nossa produção. O segundo elemento é a cooperação no trabalho: uma sociedade que não se baseia na competitividade (não estou falando de cooperação capitalista, que é forçada, na qual os trabalhadores não têm poder de decisão). O terceiro elemento é o autogoverno: a assembleia, a decisão coletiva. Os três elementos devem ser considerados para a vida de hoje.”

Silvia Federici


A Cia. do Tijolo prepara para 2023 três espetáculos inéditos. Esses processos criativos são decorrência de reflexões em elaboração desde 2016, ano em que realizamos nossa última peça de maior fôlego, O Avesso do Claustro. Não que não tenha havido muita produção durante esse período. Foram dois documentários, dois filmes, desmontagens, dois shows musicais e muita conversa e estudo. Mas temos a impressão de que o tempo e a história apresentam novos desafios com os quais precisamos lidar.

A elaboração desses três trabalhos busca responder a uma pergunta: qual a função de um grupo de teatro na (re)construção de uma sociedade democrática no Brasil? (Importante salientar que dizemos sociedade democrática e não simplesmente regime democrático e que, por democracia, entendemos algo distinto da democracia liberal). Dessa pergunta fundamental surgem muitas outras que orientam, desorientam e reorientam nosso caminho: como deve se dar a relação dos artistas com a plateia? Quais as relações dos artistas entre si? Quais as temáticas mais prementes? Onde, com quem e para quem realizar nossos trabalhos? E por aí vai.

Dois temas interligados se apresentaram para nós, incontornáveis: a práxis da educação libertadora e a ideia de “comum”, palavra presente em comunhão, comunidade, comunismo, etc... Não há como não fazer referência à obra de Silvia Federici e sua política dos comuns. Mas também não há como não nos referirmos à definição de comunismo elaborada por Dona Maria Viúva, paraibana, intelectual oriunda das CEBES, agricultora e ativista: “comunismo pra mim é o comum comigo, o comum contigo e o comum com nós todos. Sendo assim eu sou comunista até a morte”

Corteja Paulo Freire é um espetáculo celebração criado para espaços abertos. Essa Corteja (grafada e dita no feminino) é, em primeiro lugar, desagravo a um dos maiores intelectuais brasileiros, tão difamado nos últimos anos. Mas não é só isso. Corteja é uma homenagem às educadoras e educadores populares, às professoras e professores de primeiro e segundo graus e a todos esses trabalhadores das escolas que encaram de frente, cotidianamente, o “desafio Brasil”.

Já Guará Vermelha, espetáculo inspirado no romance “O Voo da Guará Vermelha” de Maria Valéria Rezende, narra uma experiência educacional no sentido mais pleno e amplo que se possa conceber. Um trabalhador é alfabetizado por uma prostituta que se encontra à beira da morte. Seu nome é Rosálio. É pedreiro e contador de histórias. Ele conta para ela suas muitas histórias, enquanto ela o ensina a registra-las no papel. Esperar a próxima história faz com que ela, Irene, afaste a morte para o depois. O amor, a política e a vida em comunidade estão tão emaranhados nessa experiência, que o ato de ensinar e aprender se apresentam em seu aspecto mais vital e humano: ensinar e aprender para não morrer de fome, para não morrer de doença, para não morrer de esquecimento.

Restinga de Canudos surge de um fato pouco notado na trágica história daquela comunidade. Havia duas professoras em Canudos responsáveis pela educação das crianças. Nosso espetáculo discute a função da educação na construção de formas de vida alternativas como as que surgiram - sempre surgem e ressurgem ! - pelos cantos esquecidos do país. Restinga de Canudos é uma aula espetáculo que começa com uma aula de história ministrada por uma professora do ensino médio. Atuadores, plateia, técnicos na sala antessala do teatro.

O fazer teatral é considerado por nós uma forma de construção de conhecimento sobre o mundo. Uma prática singular capaz de interrogar o presente e produzir saberes tão importantes quanto qualquer ciência ou filosofia. As contradições, impasses e paradoxos de nosso tempo são elaborados através do trabalho dos artistas e sintetizados em imagens, símbolos e metáforas. Os rumores que atravessam o tecido social tomam forma de diálogos, pedidos, poemas, gritos, perguntas e reivindicações e canções. O invisível pode então ser visto e o silencio passa a ser ouvido. Pensamos que um teatro freiriano deva, acima de tudo, ser capaz de ouvir e dar a ouvir esses rumores, transformar os conflitos em formas sensíveis e, coletivamente, ser ele mesmo um exercício democrático em ato. Suspeitamos que o teatro, se quiser contribuir para nosso tempo, deva ser a práxis do comum.




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