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Azul em mim. Inspirado no capítulo Azul sem fim. do livro O voo da guará vermelha.

Atualizado: 6 de jun. de 2023

Para morrer basta estar vivo! Essa é uma frase que usávamos no espetáculo do grupo Ventoforte “Se o mundo fosse bom o dono morava nele”, inspirado na peça "A Pena e a lei", de Ariano Suassuna. Era uma placa de caminhão: Para morrer basta estar vivo! Tão óbvio que chega a ter graça. Tão trágico que chega a ser óbvio. Eu me lembro de um telefone tocando, meu pai o desligando com o rosto contorcido. Eu fiquei admirada por aquele aspecto, coisa que não tinha visto antes. Era algo nos olhos, na boca, que não encaixava, como se estivessem fora do lugar, mas sobretudo o que era impressionante eram os olhos de meu pai. O telefonema trazia a notícia de um acidente de carro em uma estrada. Cinco pessoas no carro e apenas uma havia sobrevivido, a que sabiam ser meu tio. A mulher e as três crianças que estavam no automóvel supunham ser minha primas e a irmã de meu pai, portanto minha tia e madrinha. Ligaram para avisar do ocorrido e também porque precisavam que fossem reconhecer os corpos. Eu via meu pai conversando com a minha mãe e era tudo tão distante do que eu já tinha visto do auto dos meus 6, 7 anos, que não tive dúvida, fui até meu pai e minha mãe e disse que eu iria reconhecer as pessoas do acidente porque, afinal eu conhecia minha tia e minhas primas. Acho que foi uma tentativa de tirar a tristeza e o estarrecimento do rosto dele e dela. Eu não me lembro exatamente como foi a resposta deles para aquele disparate infantil. Poucos minutos depois, outra ligação e a atualização de que haviam reconhecido as vítimas. Eram, na verdade uma amiga de trabalho de meu tio, com as filhas delas, que tinham idades parecidas com minhas primas, portanto a irmã de meu pai e minhas primas estavam vivas, provavelmente dormindo na casa delas, visto que era noite. Não houve necessidade de meu pai ir para o reconhecimento. Essa foi a primeira vez que vi o que um pairar da morte causa nas pessoas. É um quadro inesquecível. Mais tarde, talvez um ou dois anos desse dia -peço licença poética para os tempos lógicos, pois a memória, viva que é, se transforma- foi a mãe de meu pai que partiu, minha avó. Esse foi de fato, o primeiro enterro que eu fui. Lembro-me de meus primos, primas, irmão e irmã brincando, tinham pessoas sentadas outras em pé, algumas de cabeça baixa, as lágrimas, outras conversando sobre a mulher no caixão, minha avó. Eu fiquei umas duas noites sem dormir direito depois desse dia, tive sonhos em que eu via rostos arroxeados, sonhava com a cor roxa. Tinha medo de caminhar pela casa, de ir ao banheiro. Talvez minha inspeção infantil, meu preciosismo por detalhes tenha percebido por de baixo da maquiagem do rosto dela, alguma cor que se impunha, que dizia que precisava ser vista, algo que diga que a morte é maior do que qualquer simulacro: um arroxeado, talvez. Foi então que, logo na mesma semana, veio um sonho com ela, uma coisa dessas mágicas, íntimas e inesquecíveis, que me acompanha até hoje, que é completo de beleza e que sinto a necessidade de mantê-lo só pra mim. Pra mim e pra ela. E pra algumas pessoas de minha intimidade, é verdade. Eu guardo comigo uma boneca que ela havia comprado pra mim no dia de sua passagem.


Depois de minha avó fui a outros velórios, enterros, cremações, ritos de passagem, e, por mais que a morte seja o clichê mais contundente da vida, nossos nervos parecem não sustentar quando chega o dia de um telefonema. Como recebemos a notícia da morte, se não através de telefonemas? Se não estamos presentes, é assim. Ou através de uma boca que nos avisa já antes com os olhos e não com a fala, o que já estamos prestes a entender à medida em que o rosto se contorce, mesmo que tímido. Geralmente é assim, há exceções. Há sim.


Quando meu pai morreu, tive a nítida sensação de que havia recebido uma espécie de marca d’água na minha alma. Quando eu andava na rua, era como se as pessoas me reconhecessem através dela, como se um novo elo com o mundo havia sido criado. Minhas passadas, meu jeito de olhar para o horizonte, de perceber a mesma árvore que sempre esteve ali diante de mim, haviam se transformado. Parece que aquele homem que vivia fora de mim, e que eu conseguia admirar reconhecendo-o como outro ser, agora respirasse dentro de mim. O peito ganhando volume embora também ganhasse volume o oco que nunca se fechou. É o paradoxo da passagem, algo que falta e algo que vive dentro, imenso. Com o passar dos anos, a nossa passada imprime esse jeito que ganha o passado junto, passada e passado. Não tem volta, é impossível a negociação. Tem uma certa medida impiedosa e inalcançável na morte, nos momentos que a antecedem ou na sua concretização. Com meu pai, durante sua internação, fiquei durante um momento obcecada por seu cabelo. É que tinha sangue nos cabelos compridos de meu pai. Eu achava inadmissível deixarem aqueles cabelos tão bem cuidados e que balançavam vivos conforme o vento, sujos de sangue. Vermelho. Depois de limpá-lo eu penteei os cabelos dele, como nunca fiz com ninguém. Depois fiz uns penteados engraçados e fotografei pra mostrar pra ele depois, numa ação que pretendia proibir, parar a morte que se aproximava.


Quando nossa amiga Lizette morreu, eu estava a poucas quadras de seu apartamento. Já havia subido no ônibus, mas desci assim que li as mensagens e o telefonema com a confirmação. Encontrei-me com Rodrigo que estava também próximo e fomos juntos até o prédio. Ficamos em lugar pertinho e que frequentamos com ela muitas vezes. Esperávamos a chegada de sua família ali. A morte não escapa à burocracia, aos protocolos e ações, se acontece de um jeito assim ou assado tem que agir com isso ou aquilo. Tingisse-se de bege o inominável. Tinha dentro de mim uma certeza e um desejo de, ao subir até seu apartamento quando a família já estava lá, de me sentar ao seu lado e fazer uma prece, um cantar dentro de mim, de dentro de mim pra ela. Assim como não consegui cantar e festejar durante o enterro de meu pai, coisa que ele sempre falava que gostaria que fizéssemos, não consegui me aproximar de minha amiga para rezar seu corpo ali naquele momento. Em ambos os casos, o verbo conseguir é da ordem de não ter tido condições, de ter sido abatida por algo maior que eu, infinito e que atravessa qualquer coisa pré estipulada. Foi uma imposição de outra ordem. Cantamos sim pra ela durante o velório, em coro. Bebi meu pai com minha família sim, depois do enterro.


O que, de alguma maneira foi diferente no velório do Ilo. Talvez porque, de algum jeito estávamos nos preparando para esse momento. Será que foi por isso? Não sei com tanta precisão, mas ali pudemos dançar e cantar durante as horas do dia que se seguiam e pintar o rosto dele com sua máscara de palhaço. Dessa vez, a maquiagem ganhou um contorno de transcendência, acho que por conta de ter sido feita a muitas mãos. Aquela maquiagem que o acompanhava, azul clara, branca, verde clara. Também haviam crianças muitas, assim como no dia minha avó paterna e de meu pai.


Já no de minha avó materna estávamos em maioria de adultos e seu telefonema se confundiu com a notícia de minha última radioterapia. Eu tenho pra mim que minha avó materna arquitetou de morrer bem nesse dia, para que minha família e eu pudéssemos estar juntas, nesse misto de celebração pelo fim de uma fase e início de outra, pra nós duas. Parece-me um recado da vida que ela me deu, de que tudo é um ciclo, infindo e torto, avesso às regras. Afinal, aquele era meu momento da sensação de uma possível morte rondando. Não teve telefonema, foi um papel, um exame aberto que chegou. Ela, a morte, não completou sua ligação comigo. Não naquele momento, pois sambemos do clichê do começo desse texto. Estávamos a família próxima nesse dia e o céu estava nublado, acinzentado.

Essa passagem da vó materna foi antes de nossa amiga.


No livro de Maria Valéria Rezende, O voo da guará vermelha, no qual estamos mergulhados até os cabelos quentes, existe um capítulo que se chama Azul sem fim. Ela divide os capítulos por cores, sempre em pares, feitos as araras que voam sempre em dois, em dupla. Mas esse capítulo específico é uma cor só. Não vou entrar nas profundezas do que trata essa parte da história, é bom não entregar tudo. Essa parte é linda de se ler no próprio livro, como ele todo o é. Ou até para ser assistido na nossa montagem. Mas, às vezes o que me parece é que não é só uma cor e sim que são todas as elas junto ao azul por conta da expressão “sem fim”. Parece que é o espaço para todas as possibilidades. Outras vezes me reforça a ideia que é mesmo o oco, a falta. Azul, uma cor primária sem fim.

Todas as histórias que relatei aqui mereceriam e merecem cada uma delas um texto só, um chão só, um jardim só seu. Aqui elas se misturam para um outro tipo, uma outra vontade de encadeamento. Como o próprio livro da Maria Valéria diz em uma de suas passagens, "a vida mistura tudo, nasce tudo da mesma cepa, tramado num pano só e quem quiser separar não entendeu nada que valha." Passagem que me comove. Na última semana que conversei com meu pai antes de seu acidente-internação-morte, falamos, entre outros assuntos banais e profundos, justamente sobre a morte. Eu estava estudando Epicuro e dividi com ele, que segundo sua filosofia, a morte seria uma desintegração do corpo, que ficaríamos desprovidos de nossas sensações, portanto, não haveria sensação física, e não havendo dor na morte, não teríamos o que temer. “Quando a morte está presente, nós é que não estamos." Não sei se é bem assim, não sabemos se assim o é, não é? Desde que nós do Tijolo nos ajuntamos lá atrás, cada um, cada uma de nós perdeu alguém que nos deixou vazia, vazio de cores, num voo esquisito, com as passadas profundas... Nossas marcas d’águas também foram e vão bordando num novo jeito entrelaçado. Esse texto embora muito pessoal é pra nós, meus coloridos amigos, coloridas amigas de caminhada, que ficamos sem pares durante esses anos de criação e amizade.

E, Lizette, esse nosso novo trabalho é pra você que é misturada ao nosso cosmos, ao nosso céu sem fim.






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