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Os dentes (2008)

Brancos como a neve eram os dentes de Mariana. Dizem que uma boca há séculos possui 32 dentes. Dentes de carne não podem morder o osso. Uma gengiva gelada não aquece os lábios do companheiro febril. Camadas inteiras de uma vida morrem ao engolir o que não foi dito. Às vezes a fala não fala, a fala só pode ser rompida através do misero som que os ouvidos captam sem a vibração das partículas de ar.

No vácuo um dente não faz barulho, mas uma dentadura é capaz de amassar o chão, se esse for de barro. Como de barro são as pegadas do pequeno. Lírios de leite foram compactados na feitura daqueles que mordem, mas o gosto do que se bebe não tem a ver com o suco materno. Engole-se aquilo que se come nada mais. Um dia comi morango. Comi boi. Comi arroz. Comi traças. Comi umidade. Comi sozinho. Não reparti a migalha que não fazia mais parte do meu vocabulário. Enterrei perto da superfície o que não cabia mais. Os dentes não souberam o que havia sido escondido. Troco àquilo que cabe no espaço onde vai ser colocado. Troco um sonho por outro. Troco um dente por outro dente. Troco o sorriso com dente ou sem dente. Uma vez eu, uma vez o outro, uma vez eu com dentes, outra vez eu sem dentes. Se fecho os olhos rapidamente e vejo que todos os dentes são de ouro, logo abro e tenho a certeza que não desejo essa melhora aos que possuem cabelo. Às vezes é preciso morder a presa com o que se tem. Todos os dentes cabem em todas as bocas, todas as bocas cabem em todos alimentos. Todos as cabeças descansam no mesmo travesseiro. Todos olhos se entendem ao serem vistos. Todos os cílios se fecham um dia. Ninguém morre sem ter vivido.


Rogério Tarifa - 2004-11-08

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