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Manifesto 1 (2008)

1. Hoje uma nuvem parou sobre meu crânio, era como se o peso do mundo tirasse as enxurradas de besteiras que cometi até o exato momento que parei para observá-la. Comer pão é como desdenhar da esmola oferecida. As palavras saem como se não existissem numa ordem que se pudesse dizer entendidas. Dizem as más línguas que coçar o corpo é retirar as células mortas que já desejavam voar pelo funeral inexpressivo de uma morte de célula. Coçasse tanto durante uma vida que pra mim resto é resto e agora só nos resta comemorar aquilo que não está pronto, viva o rabisco, que nada mais é do que um traço de papel branco na cabeça de quem defeca pensando em desenhar sem querer fazer algo perfeito para ser emoldurado. Viva o abraço suado, fedido, dos trabalhadores inexpressivos do mundo chamado planeta. Quero ser torturado nas solas do pé até que se entenda que os pregos que furam minha pele abrem espaço nunca antes visto nesses corpos chamados humanos. Tenho a nítida sensação que as peles dos jacarés já foram comidas pela minha boca antes de matá-los. Forram-me com seu couro duro de cheiro de água e minha pele não é aquilo que podemos ver. Olho os pingos de água e desejo expandir, o reflexo me mostra quem poderei ser, e se um dia me tornar nuvem serei aquelas pequenas que apesar de tamparem o sol passam logo para que algo novo surja sem causar grandes estardalhaços. Dormir é necessário, camas macias são cheirosas e delicadas, mas o que nos pede a vida? O nascimento é podre e desse alimento busco encher minha barriga que aumenta cada vez mais de vento. Tirar o osso da carne sempre foi vital para os que se alimentam sem julgamento. Mata-se come-se trepa-se cheira-se a merda para que não se esqueça do perfume da vida. Daqui quantos anos não cagaremos mais? Já há aqueles que assim vivem.


A função do artista


A função do artista me vem a cabeça, a função do homem me vem a cabeça. Retiro a palavra função por não gostar muito dela. O que colocar no lugar? Papel? Trabalho? Coração? Mão? Ou simplesmente não botar nada. Ficamos só com “artista” e “homem”. Que artista é esse? Que caminha por nossa terra, deixando se levar, mas sempre atento, trabalhando, acreditando na mudança, observando as feituras dos homens do séc XXI, enquanto dialoga com os raios naturais do sol, que insiste em nos iluminar: a nós, as plantas, as pedras, aos germes, a água viva...)

E o homem?Que homem é esse que interfere com tanta agressividade nesse mundo que acredita ser seu? Com que olhos esse homem pode ver? Olhos verdes da menina linda que bebe água da poça? Ou os olhos negros daquele que deseja comprar a sabedoria da menina? Encontro inusitado esse do artista com o homem. Do homem com a natureza. Da natureza com o artista.


Choque intenso e profundo,

denominado vida e que feito na sua plenitude de integridade poderá ser transformado em arte.



Rogério Tarifa

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