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Dionísias

“Meu caminho e o do feminismo se cruzaram de muitas formas. Uma primeira delas foi com uma mulher de um bairro popular, local em que eu ia dar aulas para homens operários sobre a Bíblia. Eu ia uma vez por mês na casa de um deles, onde se reuniam de oito a dez operários. Estudávamos a Bíblia numa perspectiva social, para fundamentar as greves, as reivindicações trabalhistas. Eu sempre fazia a leitura da Bíblia que confirmava os direitos dos trabalhadores. A esposa do dono da casa nunca participava das conversas, ficava na cozinha ou nos trazia café. Até que um dia fui visitar apenas ela e lhe perguntei por que não participava das nossas conversas. Ela me disse que precisava cuidar de suas crianças, que tinha que fazer o café. Discutimos. Até que, quase irritada, disse-me: “Quer saber o motivo pelo qual não vou? Porque você fala como um homem”. Eu tentei defender-me. Ela me perguntou: “Você conhece os problemas econômicos que nós, mulheres de operários, temos?” Não. “Você sabia que a sexta-feira é o pior dia para nós, porque o salário do trabalhador sai no sábado e na sexta quase não há comida?” Não, eu dizia. “Você sabe o tipo de trabalho que fazemos para aproveitar o salário do esposo?” Não. “Você sabe as dificuldades sexuais que temos com nossos esposos?” Não. “Entende porque não quero participar de suas conversas, porque não fala a partir de nós”, disse-me. Essa mulher me abriu os olhos. Eu não me dava conta de que abria os olhos para minha condição de mulher na Igreja.”, entrevista de Ivone Gebara concedida em 2012 para o Instituto Humanitas Unisinos.

 

Estudos Dionísias (2017/2018) foi um exercício prático para reconhecermos a trajetória de nossa história – social, política, racial, pessoal - para entendermos como chegamos até aqui e porque agimos- agem - de determinadas maneiras dentro do patriarcado. Pesquisa sobre os feminismos e suas práxis de urgência para a transformação de novos olhares, perspectivas diferentes (por vezes contraditórias sim, pois dessa matéria também somos feitas), mas sobretudo profundamente verdadeiras na intenção transformadora com nossas micro políticas, com nosso "poder de alcance"  no dentro e fora de nós. 

O desejo sobre mergulhar nos estudos e desenvolvimento poético e musical sobre o universo feminista nos ronda há alguns anos. Essa vontade despertou em nós uma necessidade ainda maior quando nos depararmos com as desaparecidas políticas e militantes durante a pesquisa para o espetáculo “Cantata para um Bastidor de Utopias”, em 2013 na figura de Mariana Pineda, Heleny Guariba, Iara Iavelberg, Lélia Abramo e tantas que lutaram por suas ideias políticas em períodos cinzas de nossa história. Assim como também na pesquisa para a peça “O Avesso do Claustro”, em 2016. Durante esses estudos encontramos uma carta de Dom Helder sobre uma comunidade católica gerida por mulheres na cidade de Nísia Floresta, no Rio Grande do Norte. E para além dessa comunidade, encontramos então a própria Nísia Floresta, batizada Dionísia Gonçalves Pinto, tida como a primeira feminista brasileira, nascida no ano de 1810, no Rio Grande do Norte, na cidade de Papari (que foi rebatizada com o nome de Nísia Floresta em sua homenagem). Também criadora do primeiro sistema de educação brasileiro voltado para meninas no qual integrou matérias como matemática, geometria, estudos sociais e idiomas, o “Colégio Augusto”, no Rio de Janeiro. Dionísias também mergulhou nas vozes de mulheres como Nise da Silveira, Cora Coralina, Pagú, Chiquinha Gonzaga, Angela Davis, Ivone Gebara, Virginie Despentes, Sueli Carneiro, Carolina de Jesus, Maria Valéria Rezende, líderes de movimentos sociais  e tantas que contribuem para a ação e aprofundamento do tema. 

Uma pesquisa sobre mulheres que construíram e constroem um pensamento progressista, muitas vezes soterradas propositadamente nos escombros históricos. Quem são as mulheres que também construíram nosso país? Quem são essas que de alguma maneira rejeitaram o rótulo que lhes foi dado “por natureza”? Quantas tiveram suas trajetórias escondidas de nós?  Quem são as mulheres que organizaram e organizam e modificam pequenos e grandes núcleos sociais, políticos e afetivos? 

Nosso estudo contou com a orientação de Ivone Gebara, freira, teóloga feminista e filósofa e teve duração de aproximedamente um ano.

Vídeos-performances e apresentações, como o trabalho desenvolvido com Marilda Alface aconteceram durante o projeto assim como debates abertos ao público que contaram com as convidadas Ivone Gebara, Luiza Coppieters e Laís Borges. Também as oficinas com Patrícia Guifford, Irací Tomiatto, Laís Borges, Leona Jhovs, Marina Mathey, Carolina Bianchi e Marilda Alface, além de outras artistas que se achegaram para estudar conosco e nos acompanharam durante todo o processo.

E continuamos a caminhar.  




 

Interação com o Núcleo Musical

A criação de nossa música se deu a partir da construção amalgamada a 10 mãos e muitas palavras. “Barro, Sangue e Pão” foi inspirada em alguns conceitos da filósofa Ivone Gebara e também de nossas inspirações e aspirações a partir das  leituras durante o trabalho.

A canção foi apresentada juntamente com as mulheres do Núcleo Musical na primeira apresentação aberta ao público do Estudo Dionísias.    



 

Música - 

Barro, Sangue, Pão                                                                                

 

A.                                                                         

Eis-me aqui

Um corpo na multidão 

Entoando essa canção 

Misturada a ti

(Repete)

Eis-me aqui 

Nesse chão 

Meu silêncio de grito vesti.

 

B.

Ah, eu sou chuva que cai

Eu sou água que lava a avenida

Ah, eu sou fogo clarão 

Labreda que lambe a cidade

 

C.

São seis pernas de mulheres 

Que se abrem por segundo

Três crianças por segundo

Nascem de nós.

E se um dia essas pernas

Todo ventre em todo mundo

Em desagravo em todo mundo

Não mais parir

135 corpos

De mulheres por minuto

Comprimidos, transpassados

Mudos de si.

Soterradas, abafadas

Constrangidas, aviltadas

Esquecidas, derrubadas

Na pátria mãe

 

B.

Ah, somos rio, explosão 

Cachoeira que quebra a barragem

Ah, somos vento, tufão 

Que levanta e derruba a fronteira.

 

A.

Eis-nos aqui

Corpos na multidão 

Entoando essa canção

Misturada a ti

 

Eis-nos aqui.

 

C.

Mais de 6 milhões de vozes

Peles, corpos na cidade

Se espalhando na cidade

Feito raiz

São passantes, sapateiras,

Cientistas, moradoras 

Mães de santo, escritoras

A sua mãe

São artistas, professoras

Prostitutas, beberronas

Mães solteiras, presidentas,

Filhas da mãe

Mais de 100 milhões de vozes

Traços, cores brasileiras

Num crescendo, consonantes

Bordando o chão

 

A.

Eis-nos aqui

Corpos na multidão 

Somos barro, sangue, pão 

Enfrente a ti.

Pesquisa a partir do mito O Tropeço de Tales

Orientação de Ivone Gebara

Com Clara Kok, Cris Rasec, Eva Figueiredo, Karen Menatti e Lillian de Lima.